Paracetamol e lombalgia: um santo sem milagres?
Novo estudo contraria as diretrizes vigentes e indica que o paracetamol não é efetivo no tratamento da lombalgia aguda (WILLIAMS et al., 2014).
A lombalgia é é um sintoma altamente prevalente, responsável por muitos atendimentos médicos. Até 84% dos adultos apresenta dor lombar em algum momento de suas vidas [1,2].
O espectro da doença e a morbidade associada à dor lombar é ampla. Para muitas pessoas, os episódios de dor nas costas são autolimitados e resolve sem tratamento específico. Para outros, no entanto, a dor lombalgia é recorrente ou crônica, causando dor significativa, interferindo nas atividades diárias e qualidade de vida. O paracetamol é o analgésico de primeira linha recomendado para a dor lombar aguda; no entanto, nenhuma evidência de alta qualidade apoia esta recomendação.
Com objetivo de avaliar a eficácia do paracetamol, administrado regularmente ou se necessário, e o tempo de recuperação da dor, em comparação com placebo, em pacientes com dor lombar, ensaio clínico randomizado, multicêntrico, controlado por placebo foi conduzido em 235 centros de cuidados primários em Sydney, Austrália, no período de 11 de novembro de 2009 a 05 de março de 2013.
Para tal, pacientes com dor lombar aguda, foram distribuídos aleatoriamente numa proporção 1: 1: 1, para receber até 4 semanas de: doses regulares de paracetamol (três vezes por dia; equivalente a 3990 mg de paracetamol / dia); doses conforme a necessidade de paracetamol (ingerido quando necessário para alívio da dor; máximo 4000 mg de paracetamol / dia); ou placebo. A randomização foi realizada de acordo com um cronograma de randomização centralizado, preparado por um pesquisador não envolvido no recrutamento de pacientes ou nacoleta de dados. Pacientes e funcionários de todos os locais envolvidos foram mascarados para alocação de tratamento. Todos os participantes receberam aconselhamento e foram acompanhados por três meses. O desfecho primário foi o tempo até a recuperação da dor lombar, com recuperação definida como um escore de dor de 0 ou 1 (em uma escala de 0-10 dor) sustentado por sete dias consecutivos. Todos os dados foram analisados através de intenção de tratamento.
Resultados
550 pacientes foram atribuídos ao grupo tratamento regular (550 analisados), 549 designados para o grupo conforme a necessidade (546 analisados) e 553 foram designados para o grupo placebo (547 analisados). O tempo médio para a recuperação foi de 17 dias (95% IC 14-19) no grupo tratamento regular, 17 dias (15-20) no grupo conforme a necessidade, e 16 dias (14-20) no grupo placebo (regular vs placebo, taxa de risco 0,99, 95% IC 0,87-1,14; conforme a necessidade vs placebo 1,05, 0,92-1,19; normal vs conforme a necessidade 1,05, 0,92-1,20). Não foram registradas diferenças entre os grupos de tratamento para o tempo de recuperação (p ajustado = 0,79). A adesão aos comprimidos regulares (comprimidos consumidos por participante / dia; 4,0 [IIQ 1,6-5,7] no grupo regular, 3,9 [1,5-5,6] no grupo conforme necessário, e 4,0 [1,5-5,7] no grupo placebo). O número de participantes que relataram eventos adversos (99 [18,5%] no grupo regular, 99 [18,7%] no conforme a necessidade, e 98 [18,5%] no grupo do placebo) foi semelhante entre os grupos.
Conclusão
Os resultados sugerem que o uso regular ou conforme a necessidade de paracetamol não afeta o tempo de recuperação em comparação com o placebo nalombalgia aguda, e portanto questionam o endosso universal do uso de paracetamol neste grupo de pacientes.
Comentário
A lombalgia é uma condição muito prevalente, e em muitos casos debilitante. As diretrizes e protocolos de tratamento para o sintoma, até então, recomendam o paracetamol como a primeira escolha para tal, entretanto, o estudo comentado indica que a utilização desse medicamento não apresentou efetividade.
Essa constatação questiona o tratamento não só da lombalgia, mas de uma série de quadros álgicos, que empiricamente são tratados com analgésicos específicos, como o paracetamol, dipirona ou ibuprofeno, sem contatação em estudos de boa qualidade, e indica a necessidade de melhor comprovação nesse meio.
Referência
WILLIAMS, C. M. et al. Efficacy of paracetamol for acute low-back pain: a double-blind, randomised controlled trial. The Lancet, v. 384, n. 9954, p. 1586–1596, 23 jul. 2014.

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